As Psiconeuroses de Defesa

por fcelentano

As Psiconeuroses de Defesa – Freud, Obras Psicológicas Completas vol. III.

  1. Esse artigo é de suma importância dentro do desenvolvimento das teorias freudianas sobre as neuroses, mas mais amplamente, sobre o funcionamento do psiquismo. Aqui aparecem pela primeira vez conceitos fundamentais como: defesa, convresão, fuga para a psicose, menciona-se a natureza sexual dos problemas psíquicos e desenvolve-se uma teoria fundadora sobre as catexias e seus deslocamentos.
  2. Desde a “Comunicação preliminar”, duas posições se contrapõem quanto às síndromes histéricas, sendo que ambas partem do pressuposto de uma cisão da consciência, ou seja, da formação de duas consciências separadas, uma em que se manifestam uma grande variedade de estados patológicos: paralisias, afasias, etc., etc. Para Janet, essa dupla consciência teria a ver com aspectos constitutivos e, portanto, inatos, para Freud e Breuer, essa segunda consciência seria advinda de estados hipnóides e, dessa forma, adquirida. Nesses estados, determinadas representações seriam excluídas da comunicação associativa com a consciência, criando um segundo estado psíquico onde se manifestariam os sintomas.
  3. Freud  anuncia no presente texto que dispõe de evidências comprovando ser, a divisão do conteúdo psíquico, um “ato voluntário” do paciente. O paciente exclui as representações indesejáveis, o que torna esse tipo de histeria adquirida  muito diferente daquela em que um paciente simplesmente não reagiu a um evento traumático e, onde, a simples ab-reação seroa capaz de remover os sintomas (Histeria classificada como “de retenção”).
  4. Aqui aparece, dessa maneira, pela primeira vez o conceito de defesa. Freud acredita que houve um evento excessivamente aflitivo na vida representativa do sujeito que “decidiu esquecê-lo” por não confiar em sua própria capacidade de elaborar a representação por meio do pensamento. A representação objetável cria uma contradição, um conflito com o EU. (Parece-me, diferentemente do que acredita James Stratcher, que não Freud utiliza a palavra decidir em seu sentido mais estrito. Parece-me que ele acredita, neste momento, em um ato de volição. Isso se comprovaria pela análise de mulheres histéricas que conseguem relembrar perfeitamente o momento defensivo, principalmente em que aparecem impulsos sexuais indesejáveis e procuram “não pensar no assunto”).  Esse tipo de histeria não é de retenção mas classificado como “de defesa”.
  5. É esse tipo de esquecimento voluntário que irá originar casos de histeria, obsessão e psicose alucinatória (a psicose ainda é classificada aqui como uma psiconeurose de defesa, hipótese que, de fato, nunca será totalmente afastada já que no texto sobre “neurose e psicose”, essa última patologia reflete um conflito entre o Eu e o mundo externo e, portanto, uma defesa contra este).
  6. Há uma passagem muitíssimo interessante onde Freud chega praticamente às margens do conceito de inconsciente: segundo ele, há uma falha nesse processo de esquecimento voluntário, já que as representações geraram traços mnêmicos. No entanto, o que o psiquismo faz é tentar retirar-lhes o máximo de afeto, de soma de excitação. A representação enfraquecida não participaria do trabalho de associação, mas deixa uma soma de excitação “livre” que precisa encontrar um outro caminho para se expressar. Na histeria, a soma de excitação é convertida no sintoma que surge no corpo do paciente. Essa conversão pode ser total ou parcial ao longo da inervação motora. Onde a conversão se dá tem total relação com a representação enfraquecida. O Eu se sobrecarrega com um símbolo mnêmico que se aloja na consciência como uma espécie de parasita.
  7. Consequentemente, o traço mnêmico, a representação que sofreu a pressão da defesa e foi recalcada, formará o núcleo simbólico e representacional de um segundo grupo psíquico. Esse segundo núcleo desencadeia os ataques histéricos nos momentos em que certas impressões se associam à representação original enfraquecida, revigorando o afeto deslocado e, assim, reestabelece-se um vínculo associativo entre os dois grupos psíquicos, desencadeando o ataque histérico. O método catártico de Breuer consiste assim em promover a recondução da energia convertida do soma para o psiquismo. A resolução do conflito se dá através do pensamento. Essas hipóteses também nos mostram o porquê da hipnose ampliar a consciência e permitir o acesso aos dois grupos psíquicos (embora ela em nada seja capaz de remover os mecanismos de defesa que geraram a doença).
  8.  Nos casos em que não há a predisposição à conversão, o afeto permaneceria na esfera psíquica. O afeto não é convertido, mas se liga a outras representações que se tornam obsessivas. A fonte do afeto é colocada numa falsa ligação.
  9. Aqui Freud faz uma consideração muito interessante e que, acredito, chamou pouca atenção. Embora afirme que em todos os casos que analisou, a obsessão é um sucedâneo da representação sexual incompatível, afirma também que “Teoricamente, não é impossível que esse afeto (intolerável) possa surgir em outras áreas (que não as sexuais)” e que “a vida sexual traz em si as mais numerosas oportunidades para o surgimentos de representações incompatíveis” (o que acrescenta um elemento cultural e histórico, já que vivemos, por exemplo, hoje, em uma sociedade sexualmente menos repressora que a da Viena do final do século XIX).
  10. “A separação  da representação sexual de seu afeto e a ligação deste com outra representação – adequada, mas não incompatível são processos que ocorrem fora da consciência”.  Mas como chegar a essa representação? “Pode-se presumir sua existência, mas não prová-la através de qualquer análise clínico-psicológia. Talvez fosse mais correto dizer que tais processos não são de natureza psíquica, mas processos físicos cujas consequências psíquicas se apresentam como se tivessem ocorrido …” (Vê-se que Freud está muito preso ao método catártico e que a volição seria o único ponto de ancoragem para trazer à tona o que foi recalcado. Ainda não se formulou aqui o método da livre-associação).
  11. Freud também menciona aqui um tipo de caso em que sensações aflitivas de origem sexual emergem continuamente e simultaneamente às representações obsessivas. Portanto, as obsessões parecem justificadas, já que são defesas contínuas para um trabalho de repressão que não chegou à sua plena conclusão e como os pacientes estão “sabem” da origem sexual de suas obsessões, eles as omitem. O que causa espanto não é essa omissão, mas as transposições que ocorrem do afeto.
  12. É muito comum, em certos casos aparecerem fobias, já que o afeto liberado pode se apoderar de qualquer representação, principalmente as mais primárias (medo de animais, etc.). (Aqui não há propriamente uma obsessão, mas uma histeria de angústia, pois há sim a conversão, não no corpo, mas numa representação específica. Isso ainda não está claro para Freud neste texto e, provavelmente, será a análise do homem dos lobos e do pequeno Hans que permitirão esse desenvolvimento. Freud ainda não definiu as obsessões, como o fará em textos posteriores).
  13. Para o psiquismo é muito menos eficaz transformar um afeto em obsessão do que em uma conversão histérica. Nesse último caso, há uma clara formação de dois grupos psíquicos. Na obsessão, como todo afeto permanece ligado a uma outra representação na esfera psíquica, a representação psíquica é “abafada na memória” que deve ser revivida.
  14. Os casos relatados na sequência por Freud carecem de uma etiologia clínica precisa, mas todos demonstram o processo de defesa e de recalque. As autorecriminações obsessivas de uma moça que se masturbava com frequência e o deslocamento dessa autorecriminação a eventos relatados pela mídia, o que evidencia um caso de psicose alucinatória. O caso de uma mulher que tinha fobia de ir a lugares públicos por medo de incontinência urinária, o que teria direta relação com seus desejos por um cavalheiro e sua sensação de excitação próxima à de se urinar, com a sua consequente repressão e deslocamento, etc.
  15. Por fim, Freud relata um caso muito mais grave onde o Eu rejeita a representação incompatível e o afeto a ela ligada. Essa representação fica associada a um fragmento de realidade que o sujeito deseja que se concretize, mas não corresponde ao que se passa de fato. O resultado disso são surtos psicóticos alucinatórios que realizam o desejo reprimido, onde o sujeito irá atuar com violência contra qualquer tipo de teste de realidade (embora Freud ainda não formule esse conceito no texto).
  16. Por fim, Freud ressalta a hipótese fundamental de suas investigações: a de que o psiquismo funciona através de cargas de afeto e somas de excitação que são passíveis de aumento, diminuição, deslocamento e descarga.