O Inconsciente

por fcelentano

O inconsciente.

1. Por ser o objeto da psicanálise, a noção de inconsciente sofreu ao longo de seus mais de 100 anos de existência leituras e releituras que a modificaram sobremaneira. A principal contribuição para essa transformação veio de outras disciplinas como a lingüística, a lógica e a etnologia. Dentre essas contribuições se destaca a obra de Jacques Lacan que propõe a conceituação do inconsciente como linguagem.

2. No entanto, na própria obra de Freud, o conceito de inconsciente sofre profundas modificações, sendo que vários elementos novos trazidos por essa evolução estão presentes nas releituras subsequentes que o aprofundaram ou precisaram. Exemplo disso é a noção de representação ou de representante-representação que já enuncia o inconsciente como um sistema simbólico, permitindo interpretações a partir do estudo da linguagem ou, para usar um termo mais contemporâneo, da semiótica do inconsciente. Lembre-se, nesse sentido, que se de início, principalmente no capítulo VII da Interpretação dos sonhos, a preocupação Freudiana é tópica, ou seja, a de encontrar a estrutura do psiquismo e o lugar do inconsciente nele, nos escritos posteriores, sua preocupação passa a ser mais com a formação de representações no inconsciente e a relação destas com as pulsões.

3. Um traço comum a toda obra de Freud é a associação do reprimido ou recalcado ao inconsciente que é um “lugar psíquico diferenciado”. Freud procura, também, desde o início especificar o inconsciente como um lugar psíquico que não encontra um correlato em um órgão anatômico. No entanto, é preciso lembrar que Freud era médico e que tinha algumas hipóteses sobre o funcionamento neuronal e sobre sua relação com o psiquismo. Isso está presente no Projeto de 1895 que, embora abandonado, irá influenciar a hipótese do fluxo e da quantidade de energia psíquica na determinação das pulsões. Como veremos, essa hipótese econômica de investimento e descarga de energias será associado a uma teoria da representação do que é ou não recalcado e é essa teoria do representante-representação ou da representância, neologismo criado a partir de uma nova tradução da obra de Freud para o francês, que irá fundar o  inconsciente.

4. O que é o inconsciente? A pergunta é tão complexa que Garcia-Roza procura iniciar sua conceituação pelo que o inconsciente não é. O inconsciente freudiano não é um degrau mais profundo da consciência, não é uma margem ou franja da consciência, esta sendo, portanto, associada diretamente ao psiquismo. Há atos, comportamentos, discursos que não fazem sentido se observados pelo prisma da consciência.  A hipótese que funda, portanto, a existência do inconsciente reside na idéia de que nada há de arbitrário nos acontecimentos psíquicos e que sonhos, lembranças, atos falhos não são meros resíduos dos processos conscientes.

5.  A complexidade cresce ainda mais se considerarmos a questão da existência do inconsciente (estatuto ontológico) e de sua pessoalidade; ou seja de considerarmos se Freud “descobriu” um lugar psíquico com realidade própria ou se Freud “criou” o inconsciente; de pensarmos o inconsciente como um lugar com representações concretas ou como um conceito lógico e operatório; de considerarmos o inconsciente como um construto interpressoal, fruto de um processo analítico ou como uma realidade pessoal, com aspectos constitutivos e adquiridos pela experiência humana.

6. Parece estar na teoria das representações alguma pista para uma reflexão mais estruturada sobre o tema. De fato, para Freud, as representações são conteúdos psíquicos reais e não abstrações ou conceitos operatórios. O Inconsciente existe e produz efeitos e as representações existem como entidades no psiquismo humano.

7. No entanto, essas entidades podem perfeitamente ser fruto de construções significantes. São subprodutos de um processo de significação conferido às pulsões. O Inconsciente, mas mais precisamente o psiquismo como um todo, é um sistema mnêmico investido que produz uma “trama de significações” que captura as moções pulsionais.

8. No entanto, não há como se ter absoluta certeza se, no inconsciente, essa trama de significações existe como entidade. Essa incerteza tem uma relação direta com o princípio pelo qual a simples observação de um objeto, sobretudo quando esse objeto é um sujeito, modifica-o, transforma-o.

9. Os traços mnêmicos reproduzidos em uma análise são produtos de uma relação intersubjetiva. Saber se as representações existem fora daquele momento em que elas são expostas é, do ponto de vista epistemológico, impossível. Não pode se observar uma representação humana como objeto, mas apenas como relato.

10. Uma tal conclusão teria consequências clínicas bastante importantes. Em primeiro lugar, o analista jamais poderia apresentar ou conduzir a análise em direção à descoberta de uma realidade psíquica, de uma classificação dos processos psíquicos ou até mesmo da classificação de uma patologia. Ele somente pode interagir com o sujeito/analisando em uma relação pautada pela ética, ou seja, pela construção de sentidos face às pulsões retratadas a partir dos derivados discursivos dos representantes-representações (ou das representâncias) que foram reprimidas e que emergem suficientemente disfarçadas para superar a censura ou resistência do sistema pré-consciente/consciente.

11. Em segundo lugar, nessa relação entre analista e analisando, um diálogo de inconscientes somente seria possível, considerando que o inconsciente tem uma linguagem própria, uma linguagem não verbal, mas imagética. Sendo assim, entre analisando e analista, criam-se convenções de conteúdos linguísticos, estabelecendo um processo de semiose (formação do significado) que permite a comunicação a partir dessas imagens que são condensações ou deslocamentos e é dentro desse processo de comunicação onde irá surgir, aos poucos, uma narrativa que pode ser interpretada, à qual serão conferidos sentidos.

12. Se chegar ao recalcado parece ser uma missão impossível, o objeto da psicanálise não pode ser o de fazê-lo emergir para que possa ser “trabalhado”, mas simplesmente o de construir uma narrativa sobre a consciência da própria identidade. Aqui, Freud parece dispor de provas clínicas abundantes sobre a capacidade de, a partir de um diálogo sobre “representâncias”, de um diálogo sobre um material simbólico, apoiar a construção do Eu face a uma demanda reconhecida e formulada pelo paciente.

13. Nesse sentido, a posição de Nasio pela qual o único “Inconsciente” que pode ser conhecido ou reconhecido não é do analista nem o do analisando, mas é um Inconsciente impessoal que pertence a ambos, ou seja, um Inconsciente interpessoal, aparece como uma hipótese bastante interessante e polêmica sobre a sua natureza e seu funcionamento. Certamente, tem por vantagem criar condições para que se evite a superinterpretação.

14. Pessoal ou interpressoal, realidade ontológica ou construto operatório, o Inconsciente, em qualquer hipótese, pode ser conceituado como um sistema que participa do funcionamento do psiquismo, ao lado de um outro sistema denominado Pré-consciente / Consciente.

15. Qualquer interpretação (atribuição de sentido estruturante para a vida psíquica) sobre o material simbólico trazido pelo analisando só é possível através de um aparato conceitual que crie hipóteses sobre o processo pelo qual as energias psíquicas e as representações circulam por esses sistemas. Mais do que isso, conceituar as pulsões, suas representações investidas, os afetos decorrentes e os seus respectivos destinos é uma pré-condição essencial para que se possa iniciar um processo de interpretação.

16. Não são todos traços mnêmicos organizados, ou representações inconscientes que são importantes ou pertinentes para o psiquismo. Daí a distinção entre Inconsciente descritivo e Inconsciente sistêmico. Há fatos que simplesmente não estão presentes no psiquismo e que podem se tornar conscientes sem maiores esforços. Aqui falamos do Inconsciente no sentido descritivo. No sentido sistêmico, falamos do Inconsciente que comporta as representações recalcadas.

17. Interessante notar que, na clivagem do psiquismo operada pelo recalque, o Cs não é propriamente um sistema, mas um dispositivo de atenção a estímulos externos e internos. O PCs sim é um sistema porque às suas portas está a censura e dentro dele se encontram todas as representações que passaram pelo censor e estão passíveis de emergir no aparato de atenção que é o Cs.

18. Aqui chegamos a um ponto crucial da teoria freudiana sobre o Inconsciente que também tem implicações epistemológicas e clínicas. O que ocorre com uma representação quando ela passa de um sistema a outro? Há uma dupla inscrição ou há uma passagem com transformação (hipótese funcional)?

19. Na primeira hipótese  a representação está investida de uma energia específica em cada um dos sistemas; na segunda hipótese, a representação passa de um sistema a outro, sendo desinvestida e reinvestida. Segundo Garcia-Roza, essa hipótese é mais facilmente inteligível quando aplicada ao recalcamento, mas a primeira hipótese é mais compreensível quando aplicada à passagem do sistem ICs ao PCs/Cs. Isso porque o desinvestimento que ocorre no recalcamento utiliza a energia desinvestida para recalcar a idéia objetável e para que ela permaneça no sistema ICs. O que pode passar é uma representação deslocada/condensada à qual foi permitido um reinvestimento e uma atribuição de sentido.

20. A energia específica do ICs está conectada às pulsões e é chamada de libido (força de origem sexual que busca a satisfação do prazer) e a energia específica do sistem PCs/Cs se materializaria sob a forma de uma outra força, o interesse. A cada um desses investimentos corresponde um processo e um princípio. ICs = energia pulsional/libidinal livre = princípio de prazer / processo de condensação e deslocamento; PCs/CS = interesse / energia ligada, organizada = princípio de realidade. Por isso mesmo, Freud, mais a frente, no desenrolar de suas reflexões irá postular a segunda tópica, onde o Eu pode estar informado pelos dois princípios, assim como o Supereu e o Isso.

21. Lembre-se que, dentro da primeira tópica, supõe-se  que a clivagem psíquica ocorreu devido ao recalcamento original. Esse utiliza um contra-investimento pela energia diretamente absorvida da fonte pulsional – essa energia terá um poder organizador do psiquismo através de imagens e representações que criam um campo onde outras imagens e representações não poderão aparecer. Assim, o recalque originário atrairia essas imagens que não podem ser integradas.

22. O problema da hipótese tópica e funcional parece menos importante quando se considera a distinção entre representação-coisa e representação-palavra.  No esquema acima em negrito, percebemos que no sistema PCs/Cs que é mais organizado, há a presença da representação-palavra, entendida como uma representação complexa formada da imagem acústica, da imagem motora, da imagem de leitura e de escrita, em sua relação com a representação-coisa, o objeto referente. Essa seria a representação-objeto que não designa como a representação-coisa apenas o referente, o objeto, mas o significado dessa representação-coisa. Pode-se dizer que a representação-palavra seria o significante e a representação-objeto o significado.

23. Assim, quando desinvestida no sistema PCs/Cs, a representação-objeto é recalcada e passa ao ICs sem a representação-palavra que é suprimida ou superada. Da mesma forma, uma representação-coisa passa do sistema ICs ao PCs/Cs quando associada a uma representação-palavra. Essa idéia é muito importante já que o universo inconsciente não seria o universo da palavra, mas apenas o universo da imagem.

24. No entanto, para que nós compreendamos uma representação, precisamos da mediação da palavra e por isso que o que emerge na consciência só pode ser um derivado do recalcado original e um disfarce do recalcado própriamente dito, um derivado disfarçado que pôde ser nomeado pois passou pela censura. Sendo assim, aquilo que é recalcado, por definição, não pode ser nomeado. Todo o trabalho da análise seria o de permitir a geração desses derivados que podem ser nomeados e que trazem consigo uma referência ao recalcado. Esses derivados emergem como representações-objeto. As representações-objeto são, portanto, um complexo significante/significado que fazem referência a uma idéia recalcada.

25.  Chegamos, portanto, ao coração da teoria freudiana, a questão de como se ligam as representações e as pulsões. Toda representação está investida  de energia psíquica num dos sistemas. O que ocorre com as representações e a energia psíquica correspondente quando há o recalque ou no retorno do recalcado. Entender esse processo é essencial para que depois possamos abordar as condições da interpretação dos derivados psíquicos e o significado dessa interpretação.

26. No centro da teoria freudiana está uma noção cuja tradução tem gerado muitas dúvidas. A noção de Vorstellungrepräsentanz. Nos escritos de 1915 sobre a metapsicologia (principalmente no artigo sobre o recalque), Freud afirma existir uma recalque originário, uma primeira fase de recalcamento em que é negada o acesso à consciência do representante psíquico de uma pulsão, fundando a clivagem do psiquismo e criando o inconsciente.  A Vorstellungrepräsentanz seria a representância da representação psíquica e sua pulsão. Seria, portanto uma representação psíquica investida da sua energia, da pulsão correspondente.

27. Para se entender melhor o conceito, voltemos à noção de pulsão. Garcia-Roza ressalta que em Freud a pulsão é um conceito fronteiriço entre o somático e o psíquico. No âmbito somático é Triebreiz ou uma excitação somática (corporal) endógena. É um sinal. No âmbito psíquico, a pulsão investe uma representação e ganha sentido, significado. O Vorstellungrepräsentanz seria, portanto, o delegado da pulsão no psiquismo, a representância-representação, o agenciamento da energia pulsional na representação. Nesse sentido, portanto, o Vorstellungrepräsentanz seria decomposta em uma representação-objeto e numa energia pulsional investida, ou seja, num quantum de excitação, na parte intensiva da representação. Sem essa energia, o Vorstellungrepräsentanz ficaria reduzido à sua dimensão significativa. Por outro lado, sem a representação, ficaria reduzido a uma circulação de intensidades, sem qualquer significado.

28. É portanto a associação da pulsão ao significado que cria essa entidade presente no psiquismo, o Vorstellungrepräsentanz ou representância-representação, que é aquilo a que se tem acesso no processo de análise. É uma representação investida de pulsão. Por sua vez, na análise, essa pulsão aparece específicamente como uma descarga, ou o que podemos assinalar como um afeto. Dessa maneira, o recalcado é uma representância (ou um representante por delegação) da pulsão – um Triebrepräsentanz.  Na análise emergem desse Triebrepräsentanz, por um lado um Vorstellungrepräsentanz, ou seja, uma imagem ou representação-objeto investida e, por outro, uma descarga, o afeto.

29. Para tornar a questão mais clara, voltemos ao exemplo da cena relatada no texto Lembranças Encobridoras: o dente-de-leão e sua cor vívida, que torna a memória quase alucinatória, somente emerge como significativa porque é uma representação-objeto investida (ou um Vorstellungrepräsentanz). São essas que representações e não quaisquer representações que serão determinantes num processo de análise. Também será determinante a atenção dada à descarga, ao afento que pode, nesse sentido, ser associado a um sintoma. No entanto, a essa descarga deve ser atribuído um sentido que somente emerge no processo de representação.

Ressalte-se que a diferença entre pulsão (no sentido psíquico) e afeto apenas diz respeito à hipótese econômica de Freud: pulsão é investimento e afeto descarga.

30. O problema fundamental do processo psicanalítico seria o de como interpretar o Vorstellungrepräsentanz? Para tanto é preciso uma hipótese sobre como o inconsciente está estruturado e como emergem as representações à consciência. (Evidentemente, a resposta à questão também estará orientada com a questão inicial sobre a realidade ontológica do inconsciente).

31. O inconsciente estruturado como linguagem. Essa hipótese parte da idéia de que o inconsciente não é um universo desorganizado, há sentido, há linguagem, embora não haja palavras. Para Lacan o Inconsciente é uma linguagem porque é, em si, um sistema linguístico com atribuições próprias de sentido. Para tanto o Triebrepräsentanz tem que existir de fato no inconsciente e, de fato, no inconsciente devem se operar condesações e deslocamentos, metáforas e metonímias.

32. A idéia de que os pólos metafóricos e metonímicos estão associados à condensação (fusão de significantes dando origem a novas cadeias de significantes) e ao deslocamento (sobstituição de signifcantes por contiguidade), estruturada por Jackobson e retomada por Jacques Lacan traz um sentido específico ao termo linguagem. Não se trata simplesmente, como para os linguistas, de uma união entre uma imagem acústica e um conceito, a relação significantes/significado aqui cria uma relação do signo com o corpo através da sexualidade. Há, portanto, entremeando a relação significante/significado na psicanálise o que Peirce chama de interpretante. E não qualquer tipo de interpretante, um interpretante específico, determinado por um sistema de hipóteses e pressupostos sobre o funcionamento do psiquismo. Para Peirce, o interpretante não se confundo com o intérprete, ele é um significante conceitual. Ou seja, a atribuição de um significado a um significante depende de um outro significante anterior (uma outra imagem acústica) e assim por diante, criando uma cadeia infinita de significantes. O trabalho da interpretação é o de desvendar o(s) sentido(s) ou a de atribuir sentido(s) a essa cadeia de significantes. É um processo onde a semiose já ocorreu e há que se lidar com ela como um objeto ou um processo de semiose em si. Esse “ou” mais uma vez depende de uma visão sobre a existência do inconsciente.

33. Haveria aqui algumas hipóteses sobre a natureza do inconsciente que podem ter impacto sobre a forma de interpretar: 1) uma ontológica e individual, o inconsciente existe, é pessoal e é povoado por representantes pulsionais investidos. 2) Noutra, o inconsciente existe, mas é interpessoal, um construto do analista e do analisando na relação de análise. 3) Enfim, o inconsciente é individual e tão somente uma hipótese operatória. Não se sabe se ele existe ou não e o material trazido pelo analisando é um material certamente investido, mas sem significado aprioristico.

34. Na primeira hipótese, a tarefa é a de desvendar os representantes inconscientes e a exigência ética do processo de análise impele o analista, no processo de transferência, a atuar como se existisse uma realidade externa a ele e à consciência do analisando. Ele pode e deve atuar como se procurasse um objeto, como se fizesse uma arqueologia das representações. Frases afirmativas são permitidas, já que o objetivo é o de encontrar um sentido oculto. O amarelo do dente-de-leão do texto sobre as Lembranças Encobridoras de Freud é o signficante do vestido amarelo da menina por quem o analisando se apaixonou.

Nesse caso, ressalte-se que o fato do analista trabalhar, em sua própria análise, os seus recalques serviria para, na sua prática analítica, não obliterar os representantes do analisando que tivessem ressonâncias negativas no seu psiquismo. Para que possa exercer a contento seu trabalho de arqueologia.  Uma prática marcada pela possibilidade de cura está também implícita nesse trabalho.

35. Na segunda hipótese, o trabalho também é o de desvendar um material, mas um material trazido pelo analisando e cujo sentido se construiu a partir da interação do analista e do analisando; é, portanto, o de encontrar o sentido do material trazido através dessa relação. É um trabalho ao mesmo tempo de semiose involuntária ou inconsciente e outro de arqueologia consciente, ambos intersubjetivos. A ética de trabalhao também é assertiva. Há a possibilidade de uma conclusão do trabalho interpretativo. (cf. o caso relatado por Nasio abaixo).

Nesse caso, deve-se ressaltar que a análise do analista se coloca numa trama de análises e de inconscientes intersubjetivos, permitindo uma compreensão expandida dos sentidos possíveis ao material trazido pelo analisando. Mas esse inconsciente é provisório e se desfaz quando a relação analítica termina. A possibilidade de cura, parece aqui excluída por definição. Não há cura, só adaptação.

36. Na terceira hipótese, mais radical, há somente um processo de semiose, de criação do sentido a partir do material trazido pelo analisando. Saber se esse material existe, de fato, no inconsciente é irrelevante. Não há nada a ser desvendado e, portanto, a ética do processo de análise é essencialmente indagativa. Nada é, tudo pode ser. A hipótese é ao mesmo tempo libertária e individual. Toda conclusão é aqui, por essência, relativa. Mas, isso não parece querer implicar sua mutabilidade. Não parece implicar também que o psiquismo seja inexistente. Somente quer dizer que, na impossibilidade de se saber a existência das representações no psiquismo com um significado a priorístico, a análise somente poderá apoiar a construção de um psiquismo autônomo ou uma construção autônoma da identidade. Paradoxalmente, a hipótese de cura volta a ter relevância. O sintoma pode ser endereçado, ou seja, pode se dar a ele um lugar claro, um sentido e/ou uma função.

Nesse caso, a análise do analista servirá para lhe mostrar os limites de sua prática, de suas representações e de seu psiquismo. Os limites da transferência e de sua participação. Também tem como função expandir seu repertório de conceitos, percepções e significações.

37. A interpretação como prática: duas reflexões – Nasio / Birman.

Para Nasio a interpretação não é qualquer apresentação ou fala que se dá ao paciente, mas uma expressão que tem um valor semântico, o valor de um sentido que ela veicula. Nesse sentido, a interpreteção significante, como ele a nomeia, pressupõe um engajamento duplo: no analista e, como ressonância, no analisando. A interpretação significante possui traços distintivos, indicadores da sua emergência.  “Indicadores referentes ao aparecimento da interpretação no analista e ao momento de recepção pelo analisando”.

Como fala interpretativa, alguns indicadores são, para Nasio, muito claros: são enunciados curtos e bem delimitados, mas que comportam um elemento de estranha familiaridade para o analisando. São enunciados sem uma conexão direta com o material trazido pelo analisando. A interpretação é impessoal, não há “eu” nessa fala. São interpretações do grande Outro, esperadas pelo grande Outro, sendo esse grande Outro o inconsciente engajado no tratamento. Lembre-se, como dito acima, que para Nasio há um só inconsciente, o produzido pela relação entre o analista e o analisando.

Como recepção, a interpretação significante é marcada pelo silêncio, pelo choque, seguida do reconhecimento. Algo mudou, algo se alterou na estrutura da análise. Reconhecer como e o que mudou é um trabalho a posteriori e muitas vezes difícil.

No exemplo clínico trazido por Nasio, ele conta que a um relato de repulsa à sua mãe, contado por uma paciente que tinha um filho enurético e que tinha sido ela mesma enurética quando criança, ele proferiu sem saber exatamente porque, deixando se levar pelo grande Outro, a seguinte frase: “Não é ela que você não suporta, é o cheiro dela”. Num primeiro momento, até mesmo o analista se viu surpreso, mas a paciente replicou, após uma pausa: “Não é possível! É verdade! Totalmente verdade! Sempre soube disso, mas não percebia, não percebia e não conseguia dizer isso a mim mesma. Mas como é que você sabe?

Na reconstrução a posteriori, Nasio liga o fato da paciente ter sido enurética ao o cheiro da urina que causava excitação quando criança e ao cheiro no filho que causava o oposto do laço olfativo erótico que é a repulsa, bem como o desgosto do desejo feminino pela sua mãe.

Pode-se afirmar, assim, que  a frase de Nasio, a frase da paciente e a reconstrução fazem parte de um construto intersubjetivo significante. Saber se tais representações  são uma realidade ontológica, em vista da força da interpretação no processo analítico, irrelevante.

Num outro registro, Joel Birman em sua palestra “A adolescência hoje” demonstra como as condições da prática analítica e da interpretação devem integrar novos contextos simbólicos. Partindo de uma interpretação da contemporaneidade pós-moderna caracterizada pela desintegração da família nuclear burguesa, onde os filhos não representam mais um investimento para um futuro esperançoso, Birman coloca em evidência o desinvestimento narcísico dos jovens que crescem desprovidos de identidades simbólicas, sentindo-se impotentes diante do mundo.

Esses jovens criam, então, simulacros de identidade hiper-narcísica, ultra-individualista, com uma excessiva ênfase na representação do corpo (investimento excessivo na aparência e na idéia de um corpo musculoso) e simulacros de força, concretizados em práticas agressivas, aparentemente sem sentido, onde a intimidação do outro seria uma demonstração de potência de ação de que os jovens estariam, de fato, despossuidos.

Birman demonstra, por fim, como todas essas representações corporais e a ênfase na ação são acompanhadas por um empobrecimento da linguagem e do simbólico.

Nesse contexto, diz ele, uma escuta analítica flutuante e uma interpretação excessivamente aberta podem reforçar a desconstrução do paciente. Esse jovem desinvestido, necessita de uma escuta mais direta, mais “olho-no-olho”, mais dirigida e povoada de interpretações do material trazido pelo analisando que proporcione um reinvestimento narcísico mínimo.

As condições acima descritas por Nasio, de falas concisas e ambíguas, que gerem um processo de interação e, até mesmo, a hipótese de um inconsciente comum ao analista e analisando parecem inadequadas ao contexto simbólico e ao psiquismo desses jovens.

Dessa maneira, não há  resposta única, uma hipótese univoca sobre as práticas clínicas. A prática e a ética da psicanálise contemporânea nos coloca em face de uma complexidade que nos obriga a utilizar o intrumental teórico como referencial múltiplo para que o analista situe sua relação com o paciente em sua singularidade.

Frederico Celentano